FIFA 10 - Análise
Escrito por João Pessoa "WormPT"    Quarta, 07 Outubro 2009 23:03   
   
 

 
por João Pessoa "WormPT"
 
 
Da mesma maneira que o PSD viu, mais uma vez, Sócrates e o Partido Socialista manterem as rédeas do poder nas recentes eleições legislativas, também PES 2010 irá assistir, na cadeira dos vencidos, à permanência de Fifa como a melhor simulação futebolística do mercado. Como se isso não bastasse, contrariamente ao sucedido na política, a vitória de Fifa será com maioria absoluta. Antes que se levantem algumas vozes, é claro que ainda não tive acesso à versão final de PES 2010, mas considerando a pobre prestação da demonstração, ou há grandes melhorias, ou o desnível será abismal.


Se dez minutos com Fifa 10 talvez transmitam a sensação de que estamos perante um Fifa 9.5, trinta minutos já serão suficientes para qualquer um perceber que as mudanças são substanciais. A primeira grande alteração reside nos 360º de espaço disponíveis para qualquer jogador movimentar a bola. Confusos? Eu explico: Em Fifa 09, embora não seja por demais evidente, cada jogador só solta a bola para 8 direcções possíveis. Só isso explica o facto de, mesmo com o jogador todo torcido, e apertado entre dois defesas, os passes saírem quase sempre para o local pretendido. Se isso pode ser uma vantagem em algumas situações, também muitas são as vezes em que, vendo um companheiro em desmarcação, a bola acaba por quase nunca ir ter com o jogador, tendo que ser o jogador a ir ter com a bola. Fifa 10 introduz o controlo de bola em 360º, ou seja, agora a bola pode sair dos pés do jogador em qualquer direcção. Quando eu digo qualquer, é mesmo qualquer. Eu apercebi-me desse facto quando em típicas jogadas de desmarcação, na transposição do meio campo para o ataque, o atleta que recebia a bola teimava em falhar os passes, enviando o esférico para locais bem diferentes do pretendido. Habituado às rotinas de Fifa 09, era com estupefacção que, embora virando o analógico em direcção à baliza, o passe saia completamente desfasado do objectivo. Após algumas situações dessas, apercebi-me do óbvio: Em Fifa 10, a precisão do passe está completamente dependente da posição do atleta, das suas capacidades e do posicionamento dos jogadores adversários. Só isso explica que em lances de ombro a ombro ou em bola dividida, dificilmente um passe saia de forma correcta, estando dessa forma muito mais dependente da Lei da Probabilidade. É óbvio que nos casos em que o jogador está à vontade, as possibilidades de colocação da bola são infinitamente superiores, com o evidente acréscimo de credibilidade implícito.


Outra grande alteração prende-se com um particular melhoramento das disputas físicas entre atletas, e as suas consequências na jogabilidade. Em Fifa 10 as cargas de ombros são muito mais credíveis, óbvias e naturais. A luta pelo esférico surge também, por esse motivo, superior em termos qualitativos, com o anterior roubo de bola frontal a não ser tão frequente, dando lugar a antecipações convincentes, acompanhadas de encontrões e puxões bem mais realistas. Finalmente, a maior alteração proveniente desse refinamento é, sem sombra de dúvida, a diferença decorrente da corrida com bola ou sem bola. Salvaguardando atletas substancialmente diferentes em termos de valor individual, um avançado dificilmente ultrapassará em corrida um defesa sem bola. Isso é o que acontece na realidade, e agora faz parte da jogabilidade deste novo Fifa. Mesmo jogadores como Cristiano Ronaldo, ou Zlatan Ibrahimovic, já não são tão preponderantes nas respectivas equipas, pois qualquer defesa minimamente competente os consegue desarmar em corrida.


As alterações atrás descritas têm como resultado jogos mais pausados, pensados e naturais. Aliás, naturalidade é a palavra que mais me ocorre sempre que me liberto do jogo em si e me ponho a observar com olhos de espectador aquilo que está a decorrer em campo. Se o acto de correr ainda deixa transparecer o carácter artificial das imagens, a movimentação, sem corrida, dos atletas, brilha pela autenticidade, denunciando o quanto próxima da realidade está esta última versão de Fifa. O convite à troca de bola, organizando jogadas até há pouco tempo reservadas aos artistas de carne e osso, é mais do que óbvio, contribuindo para isso uma panóplia de pormenores deliciosos, onde destaco o levantar de perna ou o salto por cima da bola, do jogador que, acidentalmente, se coloca à frente de um passe destinado a um companheiro mais bem colocado.


Finalizando o capítulo da jogabilidade, resta-me referir que os guarda redes viram a sua prestação melhorada, saindo mais, e de forma mais convincente, aos pés de quem entra na grande área com a bola dominada, ao mesmo tempo que obtêm melhores resultados na defesa de golos em chapéu, tão utilizados na edição anterior. Infelizmente, as defesas para recarga, embora em menor número, continuam a fazer parte do cardápio, bem como algumas paragens cerebrais, em que gestos e saídas pouco ajustados à situação deixam uma pessoa com os nervos em alta. Apesar disso, o esforço feito na correcção dessas falhas é inegável, com resultados bem à vista.


Retomando uma das minhas afirmações iniciais, a impressão de que Fifa 10 é um ligeiro lifting da versão anterior decorre do grafismo do jogo. Realmente, poucas ou nenhumas diferenças existem entre os dois jogos. OK, um olhar mais minucioso revela um melhor trabalho na reprodução dos jogadores mais conhecidos, menus com uma melhor sofisticação (se bem que dentro da mesma matriz), e a chegada de chuva e neve ao relvado (com uma excelente e realista alteração da física da bola, sempre que isso acontece), mas a verdade é que a EA Canadá preocupou-se muito mais em refinar a excelente jogabilidade de Fifa 09, do que em alterar o seu aspecto visual. Considerando o resultado final, considero que essa foi a escolha mais acertada, primeiro porque o patamar gráfico de Fifa 09 já era muito bom, e segundo porque, afinal de contas, é a jogabilidade que mais recompensa trás ao jogador.


Longe vão os tempos em que um jogo de futebol se resumia a umas partidas em modo versus, campeonatos e taças. Nesse sentido, Fifa 10 surge como o expoente máximo de uma imensa oferta bem espelhada nas complexas ramificações de cada menu. Relativamente à edição anterior, a par de melhoramentos nos modos Manager e Clubs, a verdadeira novidade aparece sob o nome de Virtual Pro. Permitindo a criação de um atleta à nossa imagem (com direito ao download da nossa fotografia), a utilização do nosso homónimo poderá ser feita nos modos Be a Pro e Manager, dentro da componente offline, e no modo Clubs sempre que transitarmos para o online. As características do mesmo evoluirão através da conquista de Accomplishments, espécie de conquistas associadas ao desempenho do nosso atleta, que farão as delícias de todos os que são viciados neste género de mecânica. Ao mesmo tempo, o nosso atleta terá um acompanhamento constante por parte dos servidores da EA, com estatísticas profundas acerca do seu desempenho, aspecto que evidencia a forma cuidada e profissional como a produtora abordou esta componente.


Fifa 10 confirmou-se como uma excelente evolução da edição anterior. A EA Canadá, mais uma vez, realizou um trabalho exemplar, intervindo eficazmente em aspectos que melhoraram de sobremaneira toda a experiência. Se as partidas estão mais mastigadas, com maior luta a meio campo, reflectindo dessa forma aquilo que verdadeiramente se passa nas quatro linhas, a introdução dos 360º na trajectória da bola veio trazer uma maior credibilidade a uma fórmula que, desde a entrada nesta geração de consolas, se vem aproximando cada vez mais da realidade. Considerando o imenso conteúdo que oferece, seja offline, ou online, Fifa 10 afirma-se como um dos poucos jogos que vale cada cêntimo que por ele se dá.




Actualizado em ( Quarta, 07 Outubro 2009 23:40 )