Forza MotorSport 3 - Análise
Escrito por João Pessoa "WormPT"    Domingo, 18 Outubro 2009 21:55   
   
 

 
por João Pessoa "WormPT"
 
 
O pessoal mais jovem poderá, eventualmente, não se lembrar, mas tempos houve em que a simulação automóvel era indissociável da série Gran Turismo. Ora, como já deverá ser do conhecimento de todos, Gran Turismo é, e sempre foi, uma marca intimamente ligada ao nome Playstation. Ciente dessa realidade, em 2003 a Microsoft criou um estúdio com um objectivo claro: Acabar com a hegemonia de Gran Turismo, fornecendo à Xbox um simulador que competisse directamente pelo mesmo mercado. O novo estúdio que emergiu recebeu a denominação de Turn 10, e o jogo que dois anos depois surgiu foi Forza Motorsport. Chegados a 2009, após duas edições que receberam a aclamação da crítica e dos jogadores, Forza Motorsport 3 chega aos escaparates das lojas com uma intenção clara: Democratizar de uma vez por todas a simulação automóvel junto do grande público. Vamos abrir o capot a este terceiro jogo da série, desvendando os argumentos que o pretendem transformar na melhor recreação do género lançada até hoje.


A jogabilidade de Forza Motorsport 3 é composta por dificuldade e acessibilidade, profundidade e simplicidade, prazer e desafio. Na realidade, é extraordinária a amplitude de uma fórmula que consegue satisfazer uma tão grande diversidade de jogadores. Demonstrando uma metamorfose quase perfeita com o comando (o rumble é fantástico), à medida que vamos retirando ajudas, o desafio vai crescendo, sem no entanto cair no erro de modificar em demasia a experiência. Desde o travão automático, à linha de trajectória, ao controlo de tracção, ao ABS, às mudanças automáticas ou manuais (com opção de embraiagem), tudo pode ser habilitado, ou desabilitado, consoante o nível e gosto de cada um. A experiência de condução é sólida, perfeitamente distinta de veículo para veículo, apresentando uma excepcional matriz no que se refere ao compromisso necessário à conjugação dos diferentes factores que constituem uma simulação e o seu interface. O resultado é uma experiência de prazer, onde o jogador sente que está a conduzir um automóvel, que o controla, e que o desfecho da prova depende, única e exclusivamente, da sua perícia.


A potenciar uma maior aproximação à realidade está a nova visão interior. Se em Forza Motorsport 2 a minha visão favorita sempre foi a da câmara junto ao asfalto, nesta edição rendi-me completamente a uma solução que por estar tão bem conseguida, nunca, até agora, convidou à mudança. Pena é que algumas características pudessem ter sido melhor implementadas. Assim, o analógico direito (apontado em diagonal), somente permite o desvio do ângulo de visão para a direita e para a esquerda, estando as restantes posições ocupadas por perspectivas exteriores a partir do veículo. Ao mesmo tempo, também é notória a ausência de qualquer referência ao pára-brisas frontal, nomeadamente nas situações em que o sol surge posicionado de forma a denunciá-lo. Num jogo onde o patamar é tão elevado, é de lamentar este tipo de opções. Apesar disso, os interiores de cada veículo surgem bem representados, cumprindo a tarefa de emergir o jogador na simulação.


Uma grande inovação em Forza Motorsport 3 é a permanente possibilidade de retrocedermos na acção (utilizando o botão back), bem ao jeito daquilo que já existe em jogos como Grid ou, mais recentemente, Dirt 2. Essa característica não tem qualquer limite, estando unicamente dependente da nossa vontade. Aliás, o próprio jogo é persistente em lembrar-nos esse facto, seja por um toque contra outro veículo, seja por um ligeiro desvio para fora da estrada. Muito já se falou sobre esta característica, e em como ela vai de encontro ao espírito de um verdadeiro simulador. Considerando aquilo que tem sido a minha experiência, depois de algumas horas de jogo, só por duas vezes a utilizei. Nas duas situações, a uso da mesma foi feita num cenário de prova quase concluída, em que um erro de condução iria arruinar por completo a boa prestação até então. Acima de tudo, penso que a honestidade de cada jogador será colocada à prova perante a grande tentação que representa esta opção. Uns existirão, que como eu, só recorrerão à mesma em últimas circunstâncias. Outros deverão utilizá-la quase de curva em curva. E decerto existirão outros que, face à sua grande experiência, e eventualmente, brio, se recusarão a utilizá-la, preferindo repetir uma prova por inteiro, a ceder à tentação. Como referi de início, este é um jogo onde a opção impera.


Forza Motorsport 3 é feito de paixão pelas máquinas, idolatrando-as a limites até agora desconhecidos em videojogos. Exemplo disso é a forma como o nosso veículo nos é mostrado quando no menu, exibindo imagens que decerto despertarão o libido em qualquer apaixonado por automóveis. Com um conjunto de modelos transversal à maioria das marcas do mercado, o número ascende aos 400 veículos, distribuídos pelas principais categorias, dos utilitários aos veículos de competição. Assim, se a Audi ou a BMW não reservam quaisquer surpresas, Infiniti, Saleen ou Scion, serão com certeza nomes pouco comuns em qualquer léxico automóvel. É óbvio que as mais ecléticas Porsche, Lotus, Lexus ou Lamborghini surgem com os seus melhores modelos, deliciando os seguidores com linhas e curvas habitualmente reservadas às revistas da especialidade. Presente continua a divisão entre classes, podendo qualquer veículo ser alvo de um upgrade, de modo a melhorá-lo ou a reposicioná-lo noutra categoria. O processo para que isso aconteça segue a mesma mecânica dos jogos anteriores, com diversas opções na hora de intervir nas características do veículo, no entanto, e dentro do espírito mais abrangente pretendido pela produtora, foi introduzida uma nova opção denominada de Quick Upgrade, que possibilita, à distância de um botão, a maximização, dentro da classe a que pertence, das características do nosso veículo. Esta será uma alteração bem-vinda para muitos (este vosso redactor incluído), porquanto permite a poupança do precioso tempo que antes tínhamos de perder para, manualmente, tornar o veículo mais competitivo. Sei que os mais puristas poderão não concordar comigo mas, afinal de contas, é algo opcional. Em minha opinião, este pequeno/grande pormenor imprime um maior dinamismo ao modo carreira, tornando-o mais ágil e viciante.


A carreira, ao invés do habitual conjunto de provas, dividido por categorias e características, surge agora sob a forma de épocas, épocas essas representadas e acedidas através de um calendário. Assim, se durante a semana as provas se resumem a eventos menores, onde os prémios monetários não são tão significativos, aos fins-de-semana aparecem as provas para o campeonato, onde se discute o posterior acesso às categorias superiores de veículos. É uma mecânica bem mais intuitiva e satisfatória, pois somos conduzidos de forma mais coerente ao nosso objectivo, com uma ascensão mais ajustada ao que existe na realidade. Inerente a todo esse processo está o sistema de recompensas, constituído por Experience Points, tanto ao nível do piloto como ao nível dos diferentes veículos. Ao mesmo tempo, as parcerias com as diversas marcas vão surgindo à medida que progredimos, bem como as próprias Conquistas, desta vez bem mais diluídas através dos diversos patamares.


Um dos grandes problemas que sempre assolou Forza Motorsport 2 foi a insuficiência de pistas. Na realidade, os treze locais que acompanhavam o jogo, apesar de algumas variações e desdobramentos, eram uma fonte de lamento por parte dos fãs. Forza Motorsport 3 surge munido de um leque de traçados, bem à altura da sua garagem. Atento que esteve a uma das principais queixas da comunidade, o pessoal da Turn 10 incluiu nos dois DVD que compõem o jogo, vinte e dois locais distintos, que dão origem a cento e dois traçados, colmatando assim uma das grandes falhas que afligia a edição anterior. Pistas já conhecidas dos fãs, como Maple Valley ou Sebring, têm aqui o seu regresso, a par de novidades como Amalfi Coast e Camino Viejo, a primeira na Costa Italiana e a segunda nas montanhas espanholas (as mesmas da demonstração). Um retorno dos mais solicitados, vindo directamente da primeira edição da série, é a mítica Fujimi Kaido, com as suas curvas e contra curvas, intercaladas por túneis, que através do seu traçado inclinado, apertado e sinuoso, se revela um desafio extremo, repleto de locais que exigem reflexos e nervos de aço.


O pacote que embrulha Forza Motorsport 3 é composto por picos de mediania e excelência. Embora as novas pistas apresentem um grau de produção bastante acima da edição anterior, com paisagens de cortar o fôlego, e ambientes circundantes bastante pormenorizados, a maioria dos locais que transitam de Forza Motorsport 2 transmitem a sensação de que estamos a jogar… Forza Motorsport 2. Na verdade, a semelhança é tanta, que me vi obrigado a ir buscar o jogo de 2007 para esclarecer de vez a minha dúvida. O resultado foi, para minha decepção, positivo. Se Maple Valley tem um arvoredo mais detalhado, e Mugello possui uma linha do horizonte mais bonita, Laguna Seca e Tsukuba surgem com poucas ou nenhumas diferenças relativamente às suas congéneres de há dois anos. Mesmo Sebring, tirando uma forte pincelada a revelar um sol mais abrasador é, no essencial, o mesmo local que todos nós já conhecemos. Vocês poderão objectar que, apesar de tudo, Forza Motorsport 2 é um jogo da actual geração, e que pouco mais poderia ter sido feito no sentido de melhorar locais já por si, muito bem detalhados. Bem, o problema é que as pistas que surgem de novo, como já referi, e contrariando esse facto, revelam uma muito maior atenção ao pormenor, com paisagens bem mais trabalhadas e preenchidas. Se conjugarmos essas duas variáveis, obtemos um jogo povoado de contrastes, onde numa hora estamos a jogar Forza Motorsport 3, para logo a seguir darmos um passo atrás, regressando de maneira forçada a uma edição que, por motivos óbvios, deveria passar a ser somente uma bela recordação.


Como protagonistas que são, os veículos revelam bem o salto, em termos visuais, de que cada um deles beneficiou. Mais sofisticados, o traço que os desenha apresenta linhas que despertam a volúpia em cada um de nós. A par disso, as reforçadas capacidades de personalização que acompanham Forza Motorsport 3, permitem a elaboração de obras únicas, prolongando desse modo a já extensa comunidade que alimenta essa específica componente do jogo. Dentro das novidades apresentadas, talvez a mais interessante seja a possibilidade de efectuarmos um qualquer desenho fora do veículo, podendo posteriormente aplicá-lo no local pretendido.


Da sonoridade que acompanha Forza Motorsport 3, além dos poderosos e distintos rugidos de motor, destaco as passagens pelas bandas sonoras que delimitam os traçados, que para quem possuir um bom Woofer, revelam graves que nos imergem de forma incrível em toda a experiência. Também os menus, condizendo com a sua sofisticação, apresentam trechos onde a sobriedade impera. Pena é que, durante as provas, uma mescla de hard rock e pop barato infeste o ambiente, indicando desde logo o caminho das opções de áudio de maneira a eliminar tamanha poluição sonora. Aproveitando a referência aos menus, fiquem a saber que a Turn 10 fez questão de incluir, nos tempos de espera dos loadings, pequenas curiosidades que decerto farão aumentar os vossos níveis de cultura geral. Sabiam que os primeiros piscas surgiram em 1939, pela mão da americana Buick? Sabiam que em 1970, dos mais de oitenta inscritos, só sete terminaram as 24 horas de Le Mans? Finalmente, e pela primeira vez, ao longo dos menus existe uma voz que vai explicando as principais particularidades das várias componentes de Forza Motorsport 3, transmitindo uma sensação de proximidade e familiaridade, que decerto, a todos agradará.


O multiplayer de Forza Motorsport 3 surge bastante reforçado relativamente às edições anteriores, com uma lista de modos bastante mais completa. Corrida Única, Corrida Temporizada, Corridas Ponto a Ponto, Cat and Mouse, Drift, Drag, Eliminação, Corridas de Rua, Oval, entre outras, são todas diferentes opções a considerar. Com o habitual limite de oito jogadores, as disputas de pneu e chapa decerto farão furor nas tabelas do LIVE. Infelizmente, as penalizações por uma condução mais agressiva, ou por simples passagem por atalho, ficam-se pela não contabilização do tempo de volta para inserção nos Leaderboards, e por uma irreal colagem ao piso, nos casos em que o condutor decida arrepiar caminho.


Seja para o público mais hardcore, principiante, ou mesmo para aquele que se situa no meio-termo, Forza Motorsport 3 representa o continuado esforço da Turn 10 no sentido de desmistificar por completo o género da simulação automóvel, apresentando um leque de opções que se conseguem ajustar ao vasto target que pretende atingir. Não fosse a óbvia diferença gráfica entre as novas pistas, e as que transitaram da edição anterior, este seria um título que entraria muito mais profundamente no patamar da excelência. Apesar de tudo, nem isso, nem outros pormenores de menos importância conseguem fazer sombra à sólida jogabilidade e soberbo conteúdo. Indispensável para os fãs, recomendado para os restantes, Forza Motorsport 3 é, para todos os que apreciam automóveis, o instrumento ideal para darem largas à sua paixão.



 

Actualizado em ( Segunda, 19 Outubro 2009 01:22 )